“Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!” — Salmo 42:1 (ARC)
Há orações que nascem na abundância e orações que nascem na seca. O Salmo 42 é das segundas. Escrito pelos filhos de Corá, os levitas que cantavam no templo, ele dá voz a alguém que já conduziu a multidão em festa à Casa de Deus (Salmo 42:4) e agora está longe dela, cercado por quem zomba: “Onde está o teu Deus?” (Salmo 42:3). Não é um salmo de quem nunca conheceu a presença de Deus. É um salmo de quem a conheceu e sente falta dela.
Salmo 42: uma sede que só Deus sacia
A imagem que abre o salmo é a de um cervo em tempo de estiagem. Ele não procura água por gosto. Procura porque, sem ela, morre. Assim o salmista diz: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Salmo 42:2 ARC).
O hebraico torna a imagem ainda mais concreta. A palavra traduzida por “alma” é nephesh, que também pode significar garganta ou pescoço, a parte do corpo que sente a sede primeiro. Portanto, quando o salmista fala da alma sedenta, não está fazendo poesia abstrata. Está descrevendo uma necessidade tão física quanto a de beber. Além disso, ele não tem sede de bênçãos, de respostas ou de alívio. Tem sede de Deus, “do Deus vivo”, e de se apresentar “ante a face de Deus”.
Enquanto isso, a única coisa que não falta é a água errada: “As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite” (Salmo 42:3 ARC).
Quando as águas que você deseja parecem afogá-lo
O versículo 6 situa o salmista “desde a terra do Jordão e desde os hermonitas”, no extremo norte de Israel, longe de Jerusalém. É justamente a região das nascentes do Jordão, onde as águas do Hermom descem em cachoeiras ruidosas. Por isso o versículo seguinte soa tão estranho: “Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas têm passado sobre mim” (Salmo 42:7 ARC).
Note a ironia dolorosa. O homem que começou o salmo com sede agora se sente afogado. Ele tem água por todos os lados, mas não a água que procura. Mais ainda, ele chama as ondas de “tuas”. Mesmo no fundo do abismo, o salmista não tira Deus da história. As vagas que passam sobre ele ainda pertencem ao Senhor.
O hebraico guarda um detalhe aqui. O verbo traduzido por “te perturbas” no refrão (Salmo 42:5) é hamah, o mesmo usado para o rugido das águas agitadas (Salmo 46:3). Ou seja, por dentro, a alma do salmista faz o mesmo barulho que as cachoeiras fazem por fora.
Por que estás abatida, ó minha alma? O refrão que muda tudo
Então vem o refrão, repetido nos versículos 5 e 11 (e de novo em Salmo 43:5, o que leva muitos estudiosos a ler os dois salmos como um só poema):
“Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei; ele é a salvação da minha face e o meu Deus.” — Salmo 42:11 (ARC)
Martyn Lloyd-Jones, no clássico Depressão Espiritual, chamou a atenção para algo simples nesse versículo: o salmista não está apenas ouvindo a si mesmo, está falando consigo mesmo. A maior parte da nossa angústia vem de deixar que a alma fale sem ser contrariada. Ela diz que Deus esqueceu, que nada vai mudar, que o passado de alegria não volta. O salmista, porém, interrompe o próprio pensamento e o confronta com uma ordem: “Espera em Deus”.
Repare que ele não nega a tristeza. Ele a interroga. E repare também no tempo verbal: “ainda o louvarei”. A fé do Salmo 42 não é a de quem já saiu do vale. É a de quem, ainda dentro dele, decide que o vale não tem a última palavra.
Do Getsêmani a Pentecostes: a sede respondida
O Novo Testamento não deixa esse salmo sem resposta. Na noite em que foi traído, Jesus disse no Getsêmani: “A minha alma está cheia de tristeza até à morte” (Mateus 26:38 ARC). Na tradução grega do Antigo Testamento, a palavra usada no refrão do Salmo 42 é perilypos, “profundamente triste”, e é exatamente essa palavra que Mateus coloca na boca de Jesus. O Filho de Deus entrou na tristeza do salmista. Ele conhece a alma abatida por dentro.
Além disso, Jesus se apresentou como a água que o cervo procurava: “Se alguém tem sede, que venha a mim e beba” (João 7:37 ARC). E João explica logo em seguida que os rios de água viva que correriam do interior do crente eram o Espírito Santo (João 7:38-39).
Para nós, pentecostais, isso tem um peso particular. Às vezes tratamos o crente abatido como alguém que perdeu a fé ou que “não está cheio do Espírito”. O Salmo 42, contudo, foi escrito por um levita, um líder de louvor, alguém que guiava o povo em festa. A sede e as lágrimas não o desqualificaram. Pelo contrário, foram o caminho pelo qual ele voltou a Deus. Vale lembrar também que nem toda tristeza profunda é apenas espiritual: há momentos em que buscar ajuda médica e psicológica é uma forma de cuidar do corpo que Deus nos deu, e não falta de fé.
Assim, o salmista termina onde começou, com sede, mas não sem esperança: “Contudo, o Senhor mandará a sua misericórdia de dia, e de noite a sua canção estará comigo” (Salmo 42:8 ARC).
Pergunta para reflexão: Nos dias em que sua alma está abatida, você apenas escuta o que ela diz, ou já aprendeu a falar com ela e ordenar: “Espera em Deus”?

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