“Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” — João 17:21 (ARC)
Poucas horas antes de ser preso, Jesus não pediu que seus discípulos fossem fortes, bem-sucedidos ou numerosos. Pediu que fossem um. A oração de João 17, conhecida como oração sacerdotal e a mais longa registrada nos Evangelhos, começa pela glória do Pai, passa pela proteção dos que estavam com ele naquela noite e termina alcançando todos os que viriam a crer depois. É justamente ali, quando o olhar de Jesus atravessa os séculos e chega até nós, que o pedido se concentra num único tema: a unidade da igreja.
Unidade da igreja: juntos não é o mesmo que um
Pense em maçãs arrumadas numa bandeja de supermercado. Estão juntas, encostadas umas nas outras, embaladas no mesmo plástico. Mas cada uma continua inteira, separada, indiferente à vizinha. Agora coloque essas maçãs no liquidificador. Depois de batidas, já não se sabe qual é qual.
A imagem, que ouvi numa pregação recente, é simples e incômoda, porque descreve com precisão muitas igrejas: pessoas lado a lado no mesmo banco, cantando as mesmas canções, sem que a vida de uma alcance a da outra.
O grego de João ajuda a perceber a profundidade do pedido. Jesus ora para que sejam hen, “um”, a mesma palavra que ele usou ao dizer “Eu e o Pai somos um” (João 10:30 ARC). Não se trata de uma associação de interesses ou de uma convivência educada. Em vez disso, trata-se de participação numa vida comum, cujo modelo é a própria relação entre o Pai e o Filho. Proximidade não é comunhão, e a unidade da igreja que Jesus pede vai muito além dela.
O que Deus desfez em Babel
Gênesis 11 surpreende quem lê pensando que toda união é boa. A humanidade tinha uma só língua e um só projeto: construir uma torre que tocasse os céus e fazer para si um nome (Gênesis 11:4). E o mais curioso é que o próprio Deus reconhece a força daquilo: “Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e, agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer” (Gênesis 11:6 ARC). A expressão hebraica é ‘am ‘echad. Isso significa um só povo, com a mesma palavra que o Shemá usa para confessar que o Senhor é um (Deuteronômio 6:4).
A unidade de Babel tinha poder real. O problema não estava em estarem unidos, mas em torno de quê: do próprio nome, e contra a ordem divina de encher a terra (Gênesis 9:1). Por isso Deus confundiu as línguas e dispersou o povo. Nem toda união agrada a Deus; a pergunta nunca é apenas “estamos juntos?”, mas “estamos juntos em torno de quem?”.
O que Deus refez em Pentecostes
Em Pentecostes, a história de Babel é contada ao contrário. Homens de muitas nações se reúnem em Jerusalém, e o Espírito não os obriga a falar uma só língua. Pelo contrário, cada um ouve as grandezas de Deus no seu próprio idioma (Atos 2:8-11). Onde Babel produziu confusão e dispersão, o Espírito produz entendimento e ajuntamento. Isso acontece sem apagar as diferenças.
Isso equilibra a imagem das maçãs. A unidade da igreja não é uniformidade; no corpo de Cristo, o olho continua sendo olho e a mão continua sendo mão (1 Coríntios 12:14-21). Da mesma forma, o Pai e o Filho são um sem deixarem de ser distintos. João 17 está no centro desse arco entre Babel e Pentecostes. Jesus pede uma unidade guardada “em teu nome” (João 17:11) e voltada para a glória que recebeu do Pai (João 17:22). Isso significa não o nosso nome, mas o dele.
Unidade da igreja e testemunho: para que o mundo creia
Jesus não trata a unidade como um assunto interno, bom para o clima da congregação. Ele a liga diretamente ao testemunho: “para que o mundo creia que tu me enviaste”. Uma igreja dividida não é apenas uma igreja triste; é um argumento vivo contra o evangelho que ela anuncia. Babel quis fazer um nome e foi espalhada. A igreja carrega o nome do Pai e é enviada.
Para nós, pentecostais, a advertência tem um peso particular. Podemos ter dons, línguas e fervor, e ainda assim soar como metal que ressoa se faltar amor (1 Coríntios 13:1). É a mesma denúncia que Amós fez contra o culto sem justiça. A unidade da igreja pela qual Jesus orou custa perdão, renúncia de preferências e disposição de deixar que a nossa vida se misture com a do irmão.
Mas é também resposta a uma oração que o próprio Filho fez por nós, antes mesmo de existirmos, e que o Espírito continua a sustentar com sua intercessão.
Pergunta para reflexão: Na sua igreja, você está apenas ao lado dos irmãos, como maçãs numa bandeja, ou sua vida de fato se mistura com a deles em torno do nome de Cristo?

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