“Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes, em tudo, mediante oração e súplica, com ações de graças, fazei os vossos pedidos conhecidos diante de Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” — Filipenses 4:6-7 (ARC)
A ansiedade cristã é sempre sobre o futuro, nunca sobre o agora. Nunca sobre o agora.
Ninguém fica ansioso pelo momento presente, pelo ar que está respirando agora, pelo chão que está pisando agora, pela cadeira em que está sentado agora. A ansiedade vive num tempo que ainda não existe. Ela pega um problema possível, um cenário imaginado, uma ameaça que ainda não chegou, e trata tudo isso como se já fosse real.
Jesus sabia disso. Por isso, quando ensinou sobre a ansiedade no Sermão do Monte, Ele não disse “não se preocupe com o futuro porque vai dar tudo certo”. Disse algo muito mais preciso: “Não andeis ansiosos pelo dia de amanhã, pois o amanhã cuidará de si mesmo. Basta ao dia o seu próprio mal.” — Mateus 6:34 (ARC)
O remédio de Jesus para a ansiedade é o presente.
Ansiedade Cristã: O problema com o amanhã
A mente ansiosa é uma máquina de simulação. Ela projeta cenários, calcula probabilidades e ensaia desastres, tudo antes que aconteça qualquer coisa. E quanto mais ela simula, mais real o medo parece.
O problema é que a maioria dos cenários que a mente ansiosa constrói nunca se realiza. A ansiedade cristã não é fraqueza de fé, é uma batalha que Paulo mesmo enfrentou. Estudos sobre preocupação mostram que a grande maioria das coisas que nos preocupam nunca acontece, e das que acontecem, a maioria é menos grave do que o imaginado.
Mas a mente ansiosa não se importa com estatísticas. Ela se importa com possibilidades. E sempre existe uma possibilidade de que o pior aconteça.
Paulo escreve Filipenses de dentro de uma prisão. Sob ameaça de morte. Com a igreja que amava dividida por conflitos. Em circunstâncias que justificariam, humanamente falando, toda a ansiedade do mundo. E é exatamente dali, daquele contexto de incerteza real, que ele escreve: “Não andeis ansiosos por coisa alguma.”
Não é ingenuidade. É outra forma de ver o tempo.
Viver no tempo que existe
A palavra grega usada em Filipenses 4:6 para “ansiosos” é merimnao, que carrega a ideia de dividir a mente, de estar partido entre o agora e o depois. A ansiedade literalmente parte o ser humano ao meio: o corpo está aqui, a mente está no amanhã.
Paulo propõe uma alternativa: oração. Não como técnica de relaxamento, mas como reorientação radical do tempo. Como refletimos em O Peso do Silêncio, há estações em que o silêncio de Deus parece abandono, mas é nesse silêncio que a oração nos ancora.
Quando oramos, trazemos o futuro para a presença de Deus, que é o único lugar onde o futuro pode ser sustentado. Não resolvemos o amanhã. Entregamos o amanhã a Alguém que já está lá.
E o que volta dessa entrega não é a garantia de que tudo vai dar certo, Paulo não promete isso. O que volta é a paz que “excede todo o entendimento”. Uma paz que não faz sentido dadas as circunstâncias. Uma paz que guarda, a palavra grega é phroureo, que significa guarnecer como uma sentinela militar, o coração e os pensamentos.
Deus não remove as circunstâncias. Ele guarda o coração dentro delas.
O presente como presente
Há uma ironia na ansiedade: ao tentar controlar o futuro, ela rouba o presente. O momento que realmente existe, com suas possibilidades, suas belezas, suas oportunidades de encontro, é consumido pela preocupação com o que ainda não é.
Jesus aponta para as aves do céu e para os lírios do campo não para fazer poesia, mas para ensinar uma forma de habitar o tempo. As aves não armazenam para o futuro. Os lírios não se preocupam com o que vão parecer. Eles simplesmente existem, plenamente, no momento em que são.
A vida ansiosa é uma vida não vivida. Uma vida gasta num futuro imaginário enquanto o presente real escapa pelas mãos.
O convite de Paulo não é para a despreocupação irresponsável. É para a presença responsável. Planeje o amanhã, mas viva o hoje. Faça seus pedidos conhecidos diante de Deus, e então deixe que a paz de Deus guarde o que você não consegue controlar.
Porque o único tempo em que Deus age é o presente. E o único tempo em que você pode receber essa ação é agora. O convite de Paulo não é para ignorar a ansiedade cristã, mas para reorientá-la através da oração.
Pergunta para reflexão: Qual cenário futuro você está carregando hoje que poderia ser entregue a Deus em oração? O que mudaria se você decidisse viver apenas o dia de hoje, plenamente, sem o peso do amanhã?

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