A Ceia que não deixa esquecer

Versículo da Santa Ceia — Lucas 22:19

“E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.” — Lucas 22:19 (ARC)

O versículo da Santa Ceia é sempre sobre lembrar, nunca sobre esquecer. Nunca sobre esquecer.

Ninguém precisa de um mandamento para esquecer, isso acontece sozinho, aos poucos, sem decisão nenhuma. O que exige mandamento é o oposto: guardar viva uma memória que o tempo, por natureza, tende a apagar. Por isso Cristo não disse apenas “lembrem-se de mim”, frase que se perderia como tantas outras. Ele instituiu um ato para ser repetido: “fazei isto em memória de mim.”

Paulo registra a mesma ordem, quase palavra por palavra, ao corrigir a igreja de Corinto: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.” — 1 Coríntios 11:23-24 (ARC)

O mandamento de Cristo não é para lembrar. É para lembrar fazendo.

O versículo da Santa Ceia: o problema do esquecimento

A mente humana é uma máquina de esquecer. Ela absorve o extraordinário e, com o tempo, o transforma em rotina, até que o milagre de ontem vire o hábito de hoje, sem peso, sem espanto.

Israel sabia disso na pele. Antes ainda de pecar com bezerros de ouro ou murmurar no deserto, a raiz de quase toda queda espiritual do povo de Deus carrega o mesmo verbo: esqueceram. Esqueceram o Egito, esqueceram o mar que se abriu, esqueceram o maná que caía toda manhã como prova diária da provisão divina. Por isso Moisés insiste, repetidas vezes em Deuteronômio, num mandamento que soa quase estranho para ouvidos modernos: lembra-te.

Corinto caiu numa versão mais sutil do mesmo problema. Paulo, ao relembrar o versículo da Santa Ceia à igreja, não os repreende por negar a fé, o erro era mais silencioso: comiam a Ceia sem discernir o que faziam, cada um cuidando de si, alguns saciados e outros ainda com fome, o gesto sagrado repetido, mas esvaziado por dentro. Havia até desigualdade à mesa, os que chegavam primeiro comiam bem, os que chegavam depois ficavam com pouco, numa refeição que deveria significar exatamente o oposto: um só corpo, partilhado igualmente. Era possível, então como agora, manter a forma e ainda assim esquecer o que ela significa.

Não é ingenuidade esperar mais do que o hábito. É lembrar que a forma sozinha nunca bastou.

Anamnesis: lembrar que se torna presente

O grego por trás do mandamento de Cristo carrega uma palavra rica: anamnesis, a mesma que aparece no versículo da Santa Ceia registrado por Paulo em 1 Coríntios 11:24. Não é a memória que apenas relembra um fato distante, como quem folheia um álbum antigo com nostalgia. É uma memória que atualiza, que traz o passado para dentro do presente e o torna, de novo, real e operante — como explica com mais profundidade este artigo sobre o significado teológico da anamnese (vale notar que a fonte trata do tema sob a ótica litúrgica católica; o conceito etimológico, porém, é o mesmo que embasa a leitura protestante do termo).

O hebraico de Deuteronômio usa outra palavra para o mesmo movimento: zakar, lembrar, mas um lembrar que age, que muda o comportamento de quem lembra, não um lembrar meramente contemplativo.

Como refletimos em O Peso do Amanhã, a ansiedade divide a mente entre o presente e um futuro que ainda não chegou. A Ceia opera o movimento inverso: toma um passado já consumado, a cruz, o corpo partido, o sangue derramado, e o torna, de novo, presente entre os que participam da mesa. Não se trata de reviver o sacrifício, mas de deixar sua eficácia se atualizar a cada vez que o pão é partido.

Deus não pede que arquivemos o passado. Pede que o deixemos vivo entre nós.

A Ceia como presente

O versículo da Santa Ceia não termina em Lucas, ele se estende em prática toda vez que a igreja se reúne à mesa. Há algo comunitário nisso que merece atenção. O mandamento vem no plural — fazei, e a cena se passa em torno de uma mesa compartilhada, não de uma devoção isolada.

A memória que a Ceia guarda não é apenas a de cada crente lembrando sozinho, em sua meditação particular. É a memória de um povo reunido, de uma ekklesia, os convocados, relembrando juntos aquilo que os torna, de fato, um só corpo. Esquecer sozinho é fácil; lembrar em comunhão, ao lado de outros que trazem essa mesma memória à mesa, é parte do que sustenta a igreja como igreja.

Vivemos numa época que também tem pressa de esquecer. Rolamos a tela, passamos ao próximo estímulo, e o que ficou para trás, inclusive o que é sagrado, se dissolve com facilidade assustadora. A Ceia existe, entre outras coisas, como interrupção proposital desse esquecimento: um pão, um cálice, um gesto físico e coletivo, para ancorar o que a memória sozinha deixaria escapar.

Lembrar sozinho é fácil de esquecer. Lembrar à mesa, com outros, é o que sustenta a memória viva da igreja.

O versículo da Santa Ceia continua sendo sempre sobre lembrar, nunca sobre esquecer.

Pergunta para reflexão: Quando você participa da Ceia, seu coração está realmente ali, ou seus pensamentos já foram embora? O que mudaria se, a cada vez que ouvisse o versículo da Santa Ceia ser lido antes de partir o pão, você deixasse aquele passado se tornar, de fato, presente?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *