O peso do silêncio

📚 Parte da série Cartas do Pregador

Silêncio de Deus

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” — Eclesiastes 3:1 (ARC)

Há momentos em que oramos e o céu parece de bronze. A voz que esperamos ouvir não vem, e o sinal que pedimos não aparece. Então ficamos ali, com a alma suspensa entre a fé e a dúvida, diante do silêncio de Deus, perguntando: Ele ainda está ouvindo?

Qohélet, o pregador de Eclesiastes, conhecia bem esse território. Afinal, ele não escrevia como alguém que tinha todas as respostas. Pelo contrário, escrevia como quem olhou de frente para a complexidade da existência e, ainda assim, não abandonou a fé. “Tudo tem o seu tempo determinado”, ele diz. Não “algumas coisas”, mas tudo.

E isso inclui o silêncio.

O silêncio de Deus que assusta

O silêncio de Deus está entre as experiências que mais desconcertam o cristão. Mesmo assim, quase não falamos dele nos cultos. Preferimos os testemunhos de respostas imediatas, as histórias de milagres instantâneos e as orações que Deus respondeu na mesma semana. Essas histórias são reais, e devemos celebrá-las.

No entanto, existe outra história, menos contada e igualmente verdadeira: a de quem orou por anos sem resposta visível. A de quem clamou de madrugada e ouviu apenas o próprio choro. Ou, ainda, a de quem levou o mesmo pedido a Deus dezenas de vezes e voltou para casa de mãos vazias.

Essa experiência não indica falha espiritual, nem pecado oculto. Também não prova que Deus não existe ou não se importa. Na verdade, muitas vezes ela é simplesmente uma estação.

O tempo que não é o nosso

A cultura em que vivemos nos ensinou a interpretar a espera como fracasso. Na era do imediato, das entregas no mesmo dia e dos resultados em tempo real, a ideia de que algo bom pode demorar soa quase como heresia.

Mas o Deus das Escrituras age numa dimensão de tempo diferente da nossa. Como escreveu Pedro, “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos, como um dia” (2 Pedro 3:8). Não porque Deus seja lento, mas porque a Sua perspectiva sobre o tempo é radicalmente outra.

Por exemplo, José passou treze anos entre a promessa e o cumprimento. Abraão esperou vinte e cinco anos pelo filho prometido. Moisés, por sua vez, passou quarenta anos no deserto antes de liderar Israel. Em cada caso, o silêncio não significava ausência de Deus, mas preparação. Ou seja, era o terreno onde Deus formava o caráter, purificava a fé e moldava o homem para um propósito que ele ainda não conseguia ver.

O que fazemos com o silêncio de Deus

A questão não é se você vai enfrentar o silêncio de Deus. A questão é o que você vai fazer quando ele chegar.

Há quem abandone a fé nesse momento. Outros endurecem o coração e decidem que Deus não é confiável. Há ainda quem construa uma teologia inteira em torno da decepção, convencido de que Deus é distante, indiferente ou inexistente.

Por outro lado, há quem escolha outro caminho. O caminho de Jó, que no meio do sofrimento declarou: “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13:15). O do salmista, que clamou “Até quando, Senhor?” (Salmos 13:1), mas não parou de clamar. E o de Jesus no Getsêmani, que pediu que o cálice passasse, mas concluiu: “não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mateus 26:39).

Esses não eram homens sem dúvidas. Pelo contrário, eram homens que aprenderam a confiar mesmo quando não entendiam. Habacuque fez a mesma pergunta, como mostramos em Quando o avivamento tarda.

Silêncio de Deus: a fé que habita o deserto

O silêncio de Deus funciona como um deserto. E, na Bíblia, os desertos têm uma função. No deserto, Israel aprende a depender do maná diário. Também no deserto, Elias encontra a voz mansa e delicada, como vimos em A voz no silêncio. E é no deserto que Jesus enfrenta a tentação e sai fortalecido.

Portanto, o deserto não é o fim da jornada, mas parte dela.

Se você atravessa hoje um período de silêncio, não o interprete como rejeição. Em vez disso, pergunte o que Deus pode estar formando em você nessa estação. Pergunte o que você só aprenderia no silêncio, e nunca no barulho. E pergunte que fé Deus está construindo em você justamente porque você ainda não vê a resposta.

Afinal, tudo tem o seu tempo determinado. Inclusive o seu.

Pergunta para reflexão

Há alguma área da sua vida em que você tem interpretado o silêncio de Deus como abandono? E o que mudaria se você o visse como uma estação necessária de formação?

Este devocional faz parte da série Devocionais do Ekklesiastes.

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