Vaidade e Vocação

📚 Parte da série Cartas do Pregador

Vaidade de Vaidades

“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” — Eclesiastes 1:2 (ARC)

“Vaidade de vaidades” é a expressão mais famosa de Eclesiastes e, ao mesmo tempo, a mais mal compreendida.

Quando Qohélet declara que “tudo é vaidade”, ele não está pregando niilismo. Ou seja, não está dizendo que nada importa, que tudo é inútil ou que devemos desistir de viver com propósito. Pelo contrário, ele faz algo muito mais profundo e necessário: recusa os falsos absolutos.

Vaidade de vaidades: o que significa hebel

A palavra hebraica hebel, que traduzimos por “vaidade”, significa literalmente sopro, névoa, vapor. Em outras palavras, é a imagem de algo real, mas passageiro. Pense no vapor que sobe de uma xícara de café numa manhã fria. Ele existe: tem forma, tem temperatura, e você consegue vê-lo. Mesmo assim, você não pode segurá-lo. Em segundos, ele desaparece.

Com essa imagem, Qohélet descreve boa parte do que os seres humanos perseguem com tanta intensidade. Ele não diz que essas coisas são ilusórias, mas que são temporárias. Assim, são reais, mas não eternas; significativas, mas não absolutas.

E essa distinção muda tudo.

Os falsos absolutos da nossa vida

O “vaidade de vaidades” de Qohélet mira justamente os falsos absolutos: coisas boas que elevamos ao lugar de Deus, como se pudessem nos dar o que só Ele pode dar.

O trabalho, por exemplo, vira um falso absoluto quando se torna a nossa identidade. Acontece quando, sem ele, não sabemos quem somos. Ou quando sacrificamos relacionamentos, saúde e fé no altar da produtividade, convencidos de que a nossa realização depende do que produzimos.

O dinheiro, por sua vez, vira um falso absoluto quando acreditamos que a segurança está num saldo bancário. Nesse caso, a nossa paz fica presa ao extrato, e a ansiedade sobe cada vez que ele desce.

Quando relacionamentos e religião viram vapor

Os relacionamentos também viram falsos absolutos quando colocamos sobre as pessoas o peso de preencher o que só Deus preenche. Por exemplo, quando esperamos de um cônjuge, de um filho ou de um amigo uma completude que nenhum ser humano pode oferecer.

Por fim, até a religião pode virar um falso absoluto. Isso acontece quando ela se torna performance: o culto vira teatro, a oração vira rotina vazia, e nos preocupamos mais com a aprovação dos homens do que com a presença de Deus. Como refletimos em O Livro que Não Fecha, o conhecimento sem transformação produz orgulho, e não sabedoria.

Qohélet já tinha visto tudo isso. E, a cada vez, chegava à mesma conclusão: vapor.

Vaidade de vaidades não é o fim da história

Mesmo assim, seria um erro ler Eclesiastes como um livro de desespero. Qohélet não conclui que a existência não tem sentido. Na verdade, ele conclui que o sentido não está onde a maioria das pessoas procura.

No capítulo final, ele escreve: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem” (Eclesiastes 12:13). Não porque as coisas não tenham valor, mas porque o seu verdadeiro valor só aparece quando as orientamos para além delas mesmas.

Portanto, a vaidade das coisas não nos convida ao niilismo. Ela nos convida à reorientação. Agostinho chegou à mesma conclusão: o coração fica inquieto até repousar em Deus, como mostramos na resenha das Confissões de Agostinho.

Da vaidade de vaidades à vocação

Quando entendemos que as coisas temporárias são temporárias, não as abandonamos; ao contrário, nós as libertamos. Assim, o trabalho, visto como vapor, não perde importância, mas ganha a importância certa. Deixa de ser um ídolo e passa a ser vocação: uma forma de servir, de contribuir e de exercer o cuidado de Deus sobre a criação. Calvino desenvolve essa ideia em Sobre uma Vida Cristã.

Da mesma forma, o dinheiro, visto como vapor, não perde utilidade, mas ganha direção. Deixa de ser um fim e passa a ser um instrumento: um meio de cuidar de quem precisa, de apoiar o que é bom e de investir no que dura.

Além disso, os relacionamentos, vistos à luz da eternidade, ganham uma profundidade que o imediatismo nunca oferece. Afinal, quando paramos de exigir que as pessoas nos completem, começamos a amá-las de verdade.

A vaidade, enfim, não é inimiga da vocação. É o aviso de que estamos colocando a nossa vocação no lugar errado.

Pergunta para reflexão

O que você tem tratado como absoluto, mas que na verdade é vapor? E como seria reorientar essa área em direção a Deus e ao que de fato permanece?

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