“E, demais disto, filho meu, atenta: não há limite para fazer livros, e o muito estudar enfado é da carne. De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem.” — Eclesiastes 12:12-13 (ARC)
O livro que não fecha é o ponto de partida deste site. E há uma ironia deliciosa no versículo que escolhemos como epígrafe para falar dele.
Afinal, Qohélet dedicou a existência ao conhecimento: estudou, observou, pesquisou e escreveu. Mesmo assim, ele conclui a sua obra advertindo sobre os perigos de fazer muitos livros e estudar demais. É como se um chef estrelado dissesse: “Cuidado com a comida”. Ou como se um músico famoso advertisse: “A música pode ser perigosa”.
Mas a contradição é apenas aparente. Além disso, podemos perceber que a ideia de um livro que não fecha também simboliza essa busca contínua.
O estudo sem direção
O pregador não condena o estudo. Na verdade, condena o estudo sem direção: o conhecimento que gira em torno de si mesmo, que vira um fim, e não um meio, e que infla o ego em vez de dobrar os joelhos.
Existe uma diferença enorme entre dois tipos de estudioso. O primeiro se aproxima dos textos com humildade, sabendo que algo maior do que ele se revela ali. O segundo, por outro lado, estuda para acumular argumentos, impressionar auditórios ou se sentir superior a quem sabe menos. Assim, é fundamental reconhecer o propósito do livro que se recusa a fechar, pois ele convida à humildade.
Assim, o primeiro encontra Deus nas páginas. O segundo encontra a si mesmo e se satisfaz com isso.
Paulo, por exemplo, foi um dos homens mais eruditos do Novo Testamento. Estudou aos pés de Gamaliel (Atos 22:3), dominava o grego, o hebraico e o aramaico e conhecia a filosofia grega e a tradição rabínica. Ainda assim, escreveu: “A ciência incha, mas o amor edifica” (1 Coríntios 8:1). Ele não desprezava o conhecimento; pelo contrário, sabia exatamente onde estava o perigo.
A biblioteca a serviço do livro que não fecha
A história do cristianismo é uma história de leitores. Pense nos monges medievais que copiavam manuscritos à luz de velas. Ou nos reformadores, que insistiram para que o povo lesse a Bíblia na própria língua. Pense também nos puritanos, que enchiam as casas de livros e os sermões de referências. E, ainda, nos missionários que aprenderam línguas desconhecidas para traduzir as Escrituras.
Em todos esses casos, a biblioteca estava a serviço do Livro. Ou seja, o estudo era um ato de amor: amor a Deus, amor ao texto e amor às pessoas que aquele conhecimento, transformado em serviço, alcançaria. Dessa forma, o livro que não fecha serve também como símbolo da busca incessante.
Esse é o espírito que queremos cultivar aqui.
Por que este site existe
O Ekklesiastes nasce da convicção de que ler bem é um ato espiritual. Acreditamos que uma resenha cuidadosa pode ser uma forma de adoração. Além disso, o tempo investido em entender o que um autor quis dizer, em contextualizar o seu argumento e em avaliar a sua contribuição à luz das Escrituras é tempo bem gasto. Falamos mais disso em Leitura profunda: por que ler devagar num mundo que não para.
Mas o site nasce também da consciência do perigo que Qohélet aponta: acumular livros sem que eles nos transformem. Saber muito sobre Deus sem conhecer a Deus. Discutir teologia com fluência enquanto o coração permanece frio. É o mesmo risco que tratamos em O que Deus vê quando ninguém está olhando. Pensar no livro que sempre está aberto, ou seja, no livro que não fecha, nos faz lembrar desse cuidado.
Por isso, mais do que resenhas, queremos reflexões. Mais do que informação, queremos formação. E, mais do que leitores informados, queremos leitores transformados.
O livro que não fecha
O livro mais importante já existe. E ele não fecha. Em outras palavras, esse livro que nunca se encerra convida todos a continuarem lendo e aprendendo.
Cada geração o encontra fresco, atual, capaz de falar diretamente às suas perguntas mais profundas. Da mesma forma, cada leitor que o abre com humildade descobre que sempre há mais: mais profundidade, mais beleza, mais desafio e mais graça.
Toda a nossa biblioteca, por mais vasta que seja, existe para nos ajudar a lê-lo melhor. Os comentários iluminam passagens obscuras. A teologia sistemática organiza o que as Escrituras ensinam. A história da igreja mostra como gerações anteriores enfrentaram perguntas semelhantes. E a literatura cristã dá voz às experiências que reconhecemos na própria alma, como as Confissões de Agostinho.
Mesmo assim, nenhum desses livros substitui o Livro. Todos apontam para ele. E é por isso que o livro que não fecha permanece central para nosso propósito.
Que as nossas leituras nos tornem pessoas melhores, e não apenas mais informadas. Que o nosso estudo nos aproxime de Deus, e não apenas do conhecimento sobre Deus. E que, ao fim de cada página, a conclusão de Qohélet ressoe em nós como um lembrete necessário: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus”.
Pergunta para reflexão
A sua busca por conhecimento teológico tem aproximado você de Deus, ou apenas deixado você mais informado sobre Ele? Existe diferença entre as duas coisas. E onde você está nessa jornada diante do livro que permanece aberto, o livro que não se fecha completamente?

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