“A ti levanto os meus olhos, ó tu que habitas nos céus.” — Salmos 123:1 (ARC)
Levantar os olhos é o convite mais simples e mais difícil de seguir no mundo atual. As dificuldades do dia a dia têm trazido desafios enormes para o cristão contemporâneo. Num mundo altamente competitivo, em que o modo de vida profissional avança sobre a vida pessoal, o equilíbrio que antes existia entre o que se faz no trabalho e o que se vive em casa deixou de existir para muita gente.
Quando as metas diárias passaram a fazer parte integrante da vida do cristão, a vida pessoal também passou a fazer parte desse jogo, um jogo que tem apenas um vencedor, e quem perde se sente frustrado, exausto, sem saber exatamente quando isso deixou de ser exceção e virou rotina.
O que sustenta essa busca irracional por metas
E o que sustenta essa busca quase incessante, vinte e quatro horas por dia? A tecnologia, mais especificamente o celular. A conectividade constante permite trabalhar além do que foi combinado, sob o pretexto de “salvar a empresa” ou proteger o emprego de muitos. Isso, com frequência, é apenas retórica para manter as pessoas presas a um ciclo sem fim, sempre em busca de uma próxima meta que nunca parece suficiente.
A pergunta que resta é honesta e difícil: como se desvincular desse modo de vida, quando ele já se tornou o padrão considerado normal? Não é uma pergunta retórica, é uma angústia real de quem sente o peso de um sistema que parece não ter botão de desligar.
Levantar os olhos como resposta
Salmos 123:1 responde a essa angústia de um jeito que não elimina o problema, mas reorienta radicalmente o olhar: “a ti levanto os meus olhos, ó tu que habitas nos céus”. O salmista escreve num contexto de opressão e desprezo, o versículo seguinte fala de servos esperando a mão de seus senhores, uma imagem de quem depende inteiramente de outro para ser socorrido. Não é coincidência que a resposta a esse tipo de exaustão comece com um movimento físico: levantar os olhos.
Levantar os olhos, na prática, é o oposto de manter a cabeça baixa, curvada sobre a tela do celular, respondendo mensagens de trabalho às dez da noite. É um ato deliberado de reorientação: parar de olhar para a lista infinita de metas e olhar para Aquele que habita nos céus, que está acima do sistema inteiro que exige performance contínua.
Isso não significa negligenciar responsabilidades reais. Significa recusar que a ansiedade profissional seja o eixo em torno do qual toda a vida gira. O cristão que levanta os olhos para Deus reconhece que existe uma autoridade maior do que a meta do trimestre, maior do que a cobrança do gestor, maior do que o medo de perder o emprego.
Oração como ferramenta diária
Orar e pedir com foco e direcionamento é a ferramenta que o cristão tem para enfrentar essas lutas diárias, além, é claro, da leitura constante da Palavra. Não se trata de oração como fórmula mágica que resolve instantaneamente a pressão do mercado de trabalho, mas como disciplina que realinha o coração todos os dias, antes que o dia comece a exigir mais do que se pode entregar sem se perder no processo.
Um ensino recente sobre esse salmo destacou algo que vale reter: a tranquilidade para resolver os problemas deve ser buscada em oração, e a persistência precisa estar presente nessa busca, não com palavras vazias, repetidas por hábito, mas com o coração sincero diante de Deus. Não é a quantidade de palavras que sustenta essa oração, é a sinceridade de quem verdadeiramente entrega a ansiedade do dia a Quem tem poder real sobre ela.
Uma prática possível
Levantar os olhos, na prática cotidiana, pode significar coisas simples: começar o dia antes de abrir qualquer aplicativo de trabalho, orando por alguns minutos. Recusar responder mensagens fora do horário combinado, confiando que Deus sustenta o que a disciplina pessoal não pode controlar sozinha. Lembrar, no meio de uma tarde exaustiva, que a meta do trimestre não é o que finalmente vai trazer descanso, esse descanso só é encontrado n’Aquele que habita nos céus.
Pergunta para reflexão: Para onde seus olhos têm estado voltados na maior parte do seu dia, para a tela do celular e a próxima meta, ou para Deus? O que mudaria se você começasse amanhã levantando os olhos antes de levantar o celular?

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