“Não devias tu também ter compaixão do teu conservo, como eu também tive compaixão de ti?” — Mateus 18:33 (ARC)
Perdoar setenta vezes sete é a resposta que Jesus dá quando alguém pergunta até onde vai o limite do perdão, e é exatamente essa resposta que a parábola em Mateus 18 vem explicar. Jesus conta a história de um servo que devia dez mil talentos ao seu rei, uma soma tão absurda que os ouvintes originais provavelmente riram da hipérbole. Afinal, nenhum servo juntaria tanto dinheiro nem trabalhando a existência inteira. E o rei, diante da súplica do servo, faz algo inesperado: perdoa a dívida inteira (Mateus 18:27 ARC).
O mesmo servo, minutos depois, encontra um colega que lhe devia cem denários, uma quantia real, mas infinitamente menor. Ele o agarra pela garganta exigindo pagamento imediato, mandando-o para a prisão quando não consegue pagar (Mateus 18:28-30 ARC).
A parábola do perdão e sua matemática impossível
A parábola funciona porque a desproporção é escandalosa de propósito. Jesus não está comparando ofensas parecidas, pelo contrário, ele mostra que Deus nos perdoou uma dívida maior do que qualquer ofensa contra nós. é categoricamente maior do que qualquer ofensa que alguém possa cometer contra nós. Além disso, não é questão de grau, é questão de categoria diferente inteiramente.
Isso não significa que ofensas humanas sejam pequenas ou sem importância, o texto não minimiza a dor real de ser ferido por alguém. No entanto, significa que, comparada à graça que recebemos, mesmo a maior ofensa humana contra nós é de outra ordem de grandeza diante do que já nos foi perdoado.
O perdão como resposta à graça recebida
O rei confronta o servo com uma pergunta que atravessa qualquer justificativa: “não devias tu também ter compaixão do teu conservo, como eu também tive compaixão de ti?” (Mateus 18:33 ARC). O perdão que recebemos não é apenas benefício pessoal, é modelo que deveria moldar como tratamos os outros.
Isso reposiciona completamente a motivação para perdoar. Não perdoamos porque a ofensa pesou pouco, nem porque a pessoa merece, nem porque esquecemos o que aconteceu. Por outro lado, perdoamos porque já fomos perdoados de uma dívida impagável, e recusar estender a mesma graça que recebemos é, na lógica da parábola, uma contradição que Jesus trata com extrema seriedade.
Um alerta sério no final da parábola
A parábola termina de forma desconfortável: o rei entrega o servo impiedoso aos atormentadores, “até que pagasse tudo o que lhe devia” (Mateus 18:34 ARC). Jesus conclui: “assim vos fará também meu Pai celestial, se do coração não perdoardes cada um a seu irmão as suas ofensas” (Mateus 18:35 ARC).
Isso não ensina que o perdão de Deus por nós é condicional ao nosso desempenho moral, o restante do Evangelho deixa claro que a salvação é pela graça, não por obras. Mas ensina que um coração genuinamente transformado pela graça recebida naturalmente se torna um coração capaz de perdoar. Em outras palavras, quem persiste na incapacidade de perdoar ainda não compreendeu, nem acolheu de verdade, a graça que recebeu.
Perdoar setenta vezes sete: o contexto que provoca a parábola
Vale notar o que motiva Jesus a contar essa história. Pedro havia acabado de perguntar: “Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?” (Mateus 18:21 ARC). Pedro já estava sendo generoso para os padrões rabínicos da época, que geralmente limitavam o perdão a três vezes pela mesma ofensa. Então, Jesus responde: “não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18:22 ARC). Com isso, ele estabelece que perdoar setenta vezes sete não é um número literal de 490. Na verdade, é uma forma de comunicar que o perdão cristão não opera por contabilidade de limites.
É exatamente nesse contexto que a parábola do perdão surge, como ilustração da lógica por trás dessa resposta aparentemente impossível. Se alguém perguntasse a José quantas vezes deveria perdoar os irmãos, ou perguntasse ao servo da parábola quantas vezes o rei perdoaria sua dívida, a resposta bíblica sempre aponta na mesma direção: o perdão que já recebemos de Deus não opera por contagem finita, e o perdão que oferecemos aos outros deveria refletir essa mesma generosidade sem limite calculado.
Isso não significa ausência de sabedoria prática, como já vimos no caso de José, perdão genuíno pode coexistir com discernimento sobre confiança e proximidade. Mesmo assim, perdoar setenta vezes sete, sem fazer contas, deveria reger o modo como tratamos quem nos ofende.
Pergunta para reflexão: Você cobra de alguém uma “dívida de cem denários” e esquece a dívida impagável que Deus já lhe perdoou? O que mudaria hoje se você medisse a ofensa que sofreu ao lado, não do que a pessoa te deve, mas do que você já recebeu de graça?

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