Esgotamento Espiritual: O fogo que ainda queima

Esgotamento Espiritual: O fogo que ainda queima

“Respondeu Elias: Tenho sido muito zeloso pelo Senhor Deus dos Exércitos; porque os filhos de Israel abandonaram a tua aliança, derrubaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida.” — 1 Reis 19:14 (ARC)

O esgotamento espiritual tem um rosto no Antigo Testamento, e esse rosto é o de Elias. Afinal, o capítulo 19 de 1 Reis traz uma cena perturbadora.

O mesmo homem que pouco antes fizera descer fogo do céu no monte Carmelo agora está debaixo de um zimbro, pedindo a Deus que o deixe morrer. Ele enfrentara sozinho quatrocentos e cinquenta profetas de Baal. Além disso, orara com tanta intensidade que a chuva voltou depois de anos de seca. Mesmo assim, agora diz: “Já basta, ó Senhor; toma agora a minha vida” (1 Reis 19:4).

Não se trata de um personagem fraco. Pelo contrário, é Elias, o profeta do fogo, o homem que Deus levaria vivo ao céu. E, ainda assim, ele está esgotado, com medo e sozinho, convencido de que é o único que sobrou.

Se você já sentiu algo parecido depois de um período de grande serviço a Deus, saiba que não está sozinho. Na verdade, o modo como Deus responde a Elias nesse momento diz tudo sobre quem Ele é.

O esgotamento espiritual depois da vitória no Carmelo

Para entender o esgotamento de Elias, precisamos entender o que veio antes.

No capítulo anterior, Elias protagonizou um dos confrontos mais dramáticos de toda a Escritura. De um lado, quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, sustentados pela rainha Jezabel e apoiados pelo poder do Estado. Do outro, Elias, sozinho, com o Deus de Israel.

Então o fogo desceu, e o povo se prostrou. Em seguida, Elias mandou executar os profetas de Baal e orou pela chuva até que o céu se abrisse (1 Reis 18:38-45).

Foi um dia de vitória absoluta. No entanto, logo depois, diante da ameaça de Jezabel, ele fugia para o deserto pedindo para morrer.

Isso nos ensina algo que raramente ouvimos: muitas vezes, os maiores esgotamentos espirituais vêm logo depois das maiores vitórias. O pico de adrenalina cede, e a intensidade passa. Assim, o que resta é um ser humano exausto, vulnerável e exposto.

O perigo da solidão espiritual

A frase que Elias repete duas vezes nesse capítulo é reveladora: “eu fiquei só”.

Ele estava convencido de que era o único fiel que restava em Israel. Essa convicção, equivocada como Deus logo mostraria, alimentava o seu desespero. Afinal, quando nos sentimos completamente sozinhos na fé, a carga se torna insuportável. Como refletimos em O Peso do Silêncio, há estações em que o silêncio de Deus parece abandono, mas é preparação.

Existe, ainda, um tipo de solidão espiritual particularmente perigoso. Não é a solidão de quem perdeu amigos, mas a de quem sente que ninguém ao redor leva Deus tão a sério quanto ele. Ou seja, a sensação de estar cercado de tibieza e de fé superficial.

Esse sentimento pode até ser real. Contudo, a conclusão raramente é justa.

Deus respondeu a Elias que ainda havia em Israel sete mil “joelhos que se não dobraram a Baal” (1 Reis 19:18). Sete mil! Elias não os conhecia nem os via, mas eles existiam.

Portanto, a solidão espiritual muitas vezes nos engana sobre o tamanho da nossa própria companhia.

Como Deus responde ao esgotamento espiritual

O que Deus faz diante do colapso de Elias chama a atenção justamente pelo que Ele não faz.

Deus não repreende o profeta nem questiona a sua fé. Também não lista as vitórias recentes para envergonhá-lo, nem pergunta: “Como você pode estar assim depois do Carmelo?”

Em vez disso, Ele manda um anjo tocar Elias duas vezes e dizer: “Levanta-te e come, porque mui comprido te será o caminho” (1 Reis 19:7).

Pão, água e descanso. Antes de qualquer palavra teológica, de qualquer missão renovada ou de qualquer explicação, Deus cuida do corpo exausto do seu servo.

Isso é graça: a graça do Pai que “conhece a nossa estrutura” e “lembra-se de que somos pó” (Salmos 103:14).

Só depois que Elias descansou, comeu e recuperou as forças, Deus falou com ele. E não falou no vento forte, nem no terremoto, nem no fogo, mas numa “voz mansa e delicada” (1 Reis 19:12). Aliás, é a voz que só se ouve no silêncio, justamente a que o esgotamento nos impede de escutar. Exploramos essa cena em A voz no silêncio.

O fogo que não depende do nosso estado emocional

O fogo que desceu no Carmelo não dependia do estado emocional de Elias. Na verdade, dependia da fidelidade de Deus. E o mesmo Deus que respondeu com fogo ao clamor do profeta respondeu com pão e descanso ao seu colapso.

Afinal, Ele é o Deus dos altares e também o Deus dos zimbros. O Deus das vitórias e também o Deus dos limites.

Esgotamento espiritual: descansar também é obediência

Se você vive hoje um esgotamento espiritual, depois de um período de muito serviço, muita entrega e muito fogo, saiba que o descanso não é fraqueza. Pelo contrário, é obediência. Deus não precisa que você continue correndo quando mal consegue ficar de pé.

O fogo ainda queima. Às vezes, porém, Deus precisa que você pare, coma e durma, para que possa ouvi-Lo novamente na voz mansa e delicada.

E, se o cansaço chegou ao ponto de você, como Elias, desejar não viver mais, não carregue isso sozinho. Converse com seu pastor, com alguém de confiança ou com um médico. Você também pode ligar para o CVV, no número 188, a qualquer hora. Deus mandou um anjo com pão para Elias; hoje, Ele também usa pessoas.

Pergunta para reflexão

Você tem confundido esgotamento espiritual com falta de fé? E o que Deus pode estar querendo lhe dizer na voz mansa e delicada, aquela que só se ouve quando paramos de correr?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *