Agostinho, autor de confissões e mestre das palavras, rememora sua vida inteira de modo sincero, desde os tempos mais remotos. Ele passa a sua trajetória a limpo, questionando-se constantemente sobre os motivos de não ter seguido a Jesus anteriormente. Assim, cada passagem torna-se o testemunho de alguém que perseverou a vida toda em busca de uma fé genuína e transformadora.
Escrita no final do século IV, a obra não é uma autobiografia no sentido moderno. É uma oração. Uma longa, densa e belíssima conversa de um homem com o Deus que perseguiu sem saber por décadas. Agostinho não escreve sobre sua vida, ele a confessa, no sentido mais radical da palavra: expõe, examina, lamenta e glorifica, tudo ao mesmo tempo, tudo diante de Deus, um exame de si que ecoa o que já discutimos em O que Deus vê quando ninguém está olhando.
É justamente essa honestidade desconcertante que faz das Confissões uma das obras mais influentes da história do pensamento cristão, e uma das mais relevantes para o leitor pentecostal que leva a fé a sério.
A tese que abre o livro e não nos abandona mais
Nas primeiras linhas, antes mesmo que o leitor entenda o que está prestes a ler, Agostinho lança a frase que sintetiza toda a obra:
“Nos fizeste para ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.”
Essa sentença não é retórica. É diagnóstico. É a chave hermenêutica que abre cada capítulo, cada confissão, cada desvio e cada retorno. Agostinho passa os trinta e três primeiros anos de sua vida buscando repouso nos lugares errados, no prazer, na filosofia pagã, no maniqueísmo, na ambição intelectual, e descobrindo em cada um deles a mesma insatisfação fundamental.
A tese das Confissões é simples e devastadora: a alma humana foi feita para Deus, e nada mais consegue preenchê-la de verdade. Não como consolo religioso, como realidade ontológica, a mesma constatação que já exploramos em Vaidade e Vocação, quando Eclesiastes declara que tudo é vaidade.
A Estrutura do Livro Confissões de Santo Agostinho
A obra é simetricamente perfeita, dividida em 13 livros que funcionam como capítulos principais. Para facilitar o entendimento da leitura, podemos dividi-la em duas grandes dimensões: a do Tempo e a da Eternidade.
Primeira Parte: A Dimensão do Tempo (Livros I ao IX)
Esta é a seção estritamente autobiográfica e narrativa da obra. Nela, Agostinho usa a sua memória para resgatar sua história ao longo dos anos:
Livro I: A infância e os primeiros aprendizados do autor.
Livros II e III: A adolescência rebelde, o famoso roubo das peras e a paixão pelo teatro e pela filosofia pagã.
Livros IV e V: A juventude, o apego ao maniqueísmo (uma espécie de seita da época), as perdas amorosas e a sua mudança para Roma e Milão.
Livros VI e VII: A profunda crise intelectual e espiritual de Agostinho.
Livro VIII: O ápice do livro: a emocionante conversão no jardim em Milão.
Livro IX: O seu batismo e a dolorosa morte de sua mãe, Santa Mônica.
Segunda Parte: A Dimensão da Eternidade (Livros X ao XIII)
A segunda parte compreende os livros filosóficos e teológicos, onde a biografia cessa para dar lugar à contemplação:
Livro X (A Memória): O autor faz uma verdadeira radiografia da mente humana.
Livro XI (O Tempo): Apresenta uma investigação matemática e filosófica sobre o mistério do tempo, os relógios e a eternidade, tema que também refletimos em O peso do silêncio, a partir de Eclesiastes 3.
Livros XII e XIII (A Criação): Trazem a interpretação profunda do primeiro capítulo do Gênesis, abordando a matéria-prima do cosmos e os dons da Igreja.
O Ponto Nevrálgico: O Tempo e a Criação
Esta segunda metade é o ponto nevrálgico da obra. Não se trata de uma leitura simples, mas que vale cada grama de esforço, pois contém algumas das passagens mais lindas de toda a literatura mundial. Suas explicações sobre a origem do mal e sobre a natureza do tempo prometem impactar profundamente a memória do leitor.
A propósito, a reflexão agostiniana acerca do tempo no Livro XI é um achado maravilhoso. É surpreendente como um homem do século IV pôde desenvolver uma ideia tão brilhante e vanguardista, antecipando conceitos que a própria física moderna viria a discutir séculos mais tarde.
Vale a Pena Ler as Confissões na Edição da Garnier?
A escrita de Agostinho, contudo, não propõe um percurso fácil. São palavras rebuscadas e densas. O Livro III, por exemplo, é o mais complexo de toda a obra: seu raciocínio não parece linear e, em alguns momentos, gera no leitor a tentação de desistir. A caminhada é dura, mas a recompensa compensa o cansaço.
A tradução clássica de Edward Bouverie Pusey, preservada nesta edição especial de 1620 anos da Editora Garnier, consegue manter a solenidade e o rigor que o texto exige, quem quiser conferir a tradução na íntegra pode acessá-la gratuitamente no Project Gutenberg.
É surpreendente como um homem do século IV pôde desenvolver uma ideia tão brilhante e vanguardista, antecipando conceitos que a própria física moderna viria a discutir séculos mais tarde. Para quem quiser se aprofundar na filosofia agostiniana, a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem um verbete completo sobre o pensamento de Agostinho.
Vale a leitura?
Sim, especialmente se você está disposto a ser incomodado.
As Confissões são recomendadas para todo cristão que deseja ir além da superfície da fé, que sente que há algo mais profundo a ser descoberto na relação com Deus, e que não tem medo de encontrar em Agostinho um espelho incômodo de suas próprias contradições.
Com certeza. Esta é uma daquelas obras raras que reverberam por dias dentro de nós, implodindo paradigmas e conceitos preestabelecidos. A experiência de leitura é quase física e profundamente emocionante. Portanto, prepare seu espírito: o percurso é árido, no entanto, a recompensa final na última página é imensurável.
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