O coração que não descansa, uma leitura das Confissões de Agostinho

Confissões de Agostinho de Hipona

Nas Confissões de Agostinho, o autor, mestre das palavras, revisita a própria vida com sinceridade, desde os tempos mais remotos. Além disso, ele passa a sua trajetória a limpo e se pergunta, o tempo todo, por que não seguiu a Jesus antes. Assim, cada passagem se torna o testemunho de alguém que perseverou a vida toda em busca de uma fé genuína e transformadora.

Antes de tudo, Agostinho escreveu a obra no final do século IV, e ela não é uma autobiografia no sentido moderno. Na verdade, é uma oração: uma longa, densa e belíssima conversa de um homem com o Deus que ele perseguiu, sem saber, por décadas. Assim, Agostinho não escreve sobre sua vida; ele a confessa, no sentido mais radical da palavra. Ou seja, expõe, examina, lamenta e glorifica, tudo ao mesmo tempo e tudo diante de Deus. Nesse sentido, esse exame de si ecoa o que já discutimos em O que Deus vê quando ninguém está olhando.

Por isso, justamente essa honestidade desconcertante faz das Confissões uma das obras mais influentes da história do pensamento cristão. Além disso, ela se mostra uma das mais relevantes para o leitor pentecostal que leva a fé a sério.

A tese das Confissões de Agostinho

Logo nas primeiras linhas, antes mesmo que o leitor entenda o que está prestes a ler, Agostinho lança a frase que sintetiza toda a obra:

“Fizeste-nos para ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.” — Confissões, Livro I

De fato, essa sentença não é retórica. Pelo contrário, é diagnóstico: a chave que abre cada capítulo, cada confissão, cada desvio e cada retorno. Afinal, por mais de trinta anos, Agostinho buscou repouso nos lugares errados: no prazer, na filosofia pagã, no maniqueísmo e na ambição intelectual. Contudo, em cada um deles, encontrou a mesma insatisfação fundamental.

Portanto, a tese das Confissões é simples e devastadora: Deus fez a alma humana para Si, e nada mais consegue preenchê-la de verdade. Não se trata de consolo religioso, mas de uma realidade do próprio ser. Trata-se, aliás, da mesma constatação que exploramos em Vaidade de vaidades, quando Eclesiastes declara que tudo é vaidade.

A estrutura das Confissões de Agostinho

A obra tem uma simetria notável e se divide em 13 livros, que funcionam como capítulos. Para facilitar a leitura, podemos agrupá-los em duas grandes dimensões: a do Tempo e a da Eternidade.

Primeira parte: a dimensão do Tempo (Livros I a IX)

Esta é a seção autobiográfica e narrativa da obra. Nela, Agostinho usa a memória para resgatar sua história ao longo dos anos:

  • Livro I: a infância e os primeiros aprendizados.
  • Livros II e III: a adolescência rebelde, o famoso roubo das peras e a paixão pelo teatro e pela filosofia pagã.
  • Livros IV e V: a juventude, o apego ao maniqueísmo (uma seita da época), as perdas e a mudança para Roma e Milão.
  • Livros VI e VII: a profunda crise intelectual e espiritual de Agostinho.
  • Livro VIII: o ápice do livro, a emocionante conversão no jardim em Milão.
  • Livro IX: o batismo e a dolorosa morte de sua mãe, Mônica.

Segunda parte: a dimensão da Eternidade (Livros X a XIII)

Nesta parte, a biografia cede lugar à contemplação, nos livros filosóficos e teológicos:

  • Livro X (A Memória): uma verdadeira radiografia da mente humana.
  • Livro XI (O Tempo): uma investigação filosófica sobre o mistério do tempo e da eternidade, tema que também tocamos em O peso do silêncio, a partir de Eclesiastes 3.
  • Livros XII e XIII (A Criação): uma interpretação profunda do primeiro capítulo de Gênesis, que aborda a matéria-prima do cosmos e os dons da Igreja.

O ponto nevrálgico: o tempo e a criação

Essa segunda metade concentra o ponto nevrálgico das Confissões de Agostinho. A leitura não é simples, mas vale cada grama de esforço, porque traz algumas das passagens mais belas da literatura mundial. Além disso, as reflexões sobre a origem do mal e sobre a natureza do tempo marcam profundamente a memória do leitor.

A propósito, a reflexão sobre o tempo no Livro XI das Confissões de Agostinho é um achado. Surpreende como um homem do século IV desenvolveu uma ideia tão brilhante e à frente do seu tempo, antecipando questões que a filosofia e a física modernas discutiriam séculos depois. Para quem quiser se aprofundar, a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem um verbete completo sobre o pensamento de Agostinho.

A edição da Garnier

A escrita de Agostinho, contudo, não oferece um percurso fácil. As palavras são rebuscadas e densas. Em alguns trechos, o raciocínio não parece linear e desperta no leitor a tentação de desistir. Ainda assim, a caminhada é dura, mas a recompensa compensa o cansaço.

A edição especial da Editora Garnier mantém a solenidade e o rigor que o texto exige. Para quem quiser comparar, a tradução inglesa clássica de Edward Bouverie Pusey está disponível gratuitamente no Project Gutenberg. Se você gosta de resenhas de clássicos cristãos, leia também a de Sobre uma Vida Cristã, de João Calvino.

Vale a pena ler as Confissões de Agostinho?

Sim, especialmente se você está disposto a ser incomodado.

Recomendo as Confissões de Agostinho a todo cristão que deseja ir além da superfície da fé. Em especial, a quem sente que há algo mais profundo a descobrir na relação com Deus e não tem medo de encontrar em Agostinho um espelho incômodo das próprias contradições.

Afinal, esta é uma daquelas obras raras que reverberam por dias dentro de nós, implodindo paradigmas e conceitos preestabelecidos. A experiência de leitura é quase física e profundamente emocionante. Portanto, prepare o espírito: o percurso é árido, mas a recompensa na última página é imensurável.

 


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