O Filho que disse não

Ilustração da parábola dos dois filhos em Mateus 21, representando obediência tardia e promessa não cumprida

A parábola dos dois filhos, contada por Jesus em Mateus 21, começa com uma pergunta incômoda: quantas vezes já dissemos “sim, Senhor” numa oração e, minutos depois, agimos como se não tivéssemos ouvido nada? Levantamos a mão no culto, choramos no altar, prometemos mudar. No entanto, na segunda-feira seguinte, voltamos exatamente ao ponto de partida.

Afinal, a promessa fácil é uma das mentiras mais sutis que contamos a nós mesmos. Ela nos dá a sensação de obediência sem cobrar o preço da obediência. E a Bíblia traz uma parábola curta, quase incômoda de tão simples, que expõe exatamente esse hábito. Aliás, é interessante que nesta passagem temos a célebre parábola dos filhos dois, justamente mostrando essa realidade.

O que diz a parábola dos dois filhos em Mateus 21

Em Mateus 21:28-32, Jesus conta a história de um pai que pede a dois filhos que trabalhem na vinha. Ao primeiro, ele diz: “Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha”. O filho responde sem rodeios: “Não quero”. Mas, depois, arrependido, ele vai.

Em seguida, o pai faz o mesmo pedido ao segundo filho, e a resposta vem imediata e cordial: “Eu vou, senhor”. Só que ele não vai.

Então Jesus faz a pergunta que expõe toda a parábola: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”

Além disso, o cenário não é neutro. Jesus está no templo, diante dos principais sacerdotes e dos anciãos do povo (Mateus 21:23). Ou seja, fala à elite religiosa de Israel: pessoas que conheciam a Lei de cor e ocupavam os lugares de honra nas sinagogas. Assim, fica evidente o confronto proposto pela parábola dos dois filhos.

O que a parábola dos dois filhos realmente ensina

Antes de tudo, a parábola não elogia a desobediência inicial do primeiro filho. O texto não diz que responder “não” a Deus seja uma virtude. Pelo contrário, o que ela elogia é a mudança de direção: o arrependimento que vira ação concreta. Existe uma diferença enorme entre sentir remorso e, de fato, ir para a vinha. E é essa segunda coisa que Jesus valoriza. Isso é uma das mensagens centrais que a parábola dos dois filhos pretende transmitir.

Já o segundo filho representa algo mais sutil e, por isso, mais perigoso: a religiosidade de linguagem. Trata-se da fé que sabe dizer as palavras certas e responde “eu vou, senhor” com toda a educação e aparência de submissão, mas nunca se move de verdade. Com essa imagem, Jesus confronta líderes religiosos que tinham a forma da piedade, mas não o seu fruto. Em outras palavras, homens que discursavam sobre a Lei, mas não a viviam. Falamos desse mesmo perigo em O que Deus vê quando ninguém está olhando.

Por isso, Jesus conclui de um jeito que deve ter soado como um tapa no rosto daquela audiência: “os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no Reino de Deus” (Mateus 21:31). Não porque o pecado deles fosse menor. Na verdade, ao ouvirem a pregação de João Batista, eles se arrependeram e creram. Os líderes religiosos, ao contrário, viram isso acontecer diante dos próprios olhos e, mesmo assim, continuaram parados na própria autossuficiência. Portanto, não basta ouvir a história dos dois filhos, é necessário praticar o exemplo central da parábola dos dois filhos.

Quando o “sim” não vira ação, na fé e no trabalho

Isso não acontece só na relação de cada um com Deus, mas também nas relações do dia a dia. Talvez você já tenha dito “sim” a Deus num culto emocionado: um compromisso de servir, a promessa de mudar um hábito, uma decisão tomada com lágrimas. Depois, porém, a rotina da semana engoliu aquele sim sem que você percebesse. Afinal, é fácil prometer debaixo da unção; difícil é cumprir debaixo do cansaço. E, pensando nisso, é impossível não lembrar da importância do ensino da parábola dos dois filhos nas nossas atitudes cotidianas.

O mesmo padrão se repete fora da igreja. Por exemplo, a direção de uma empresa promete um aumento salarial e diz que vai formalizar com o RH. Com o tempo, porém, o “sim, vamos resolver isso” se dissolve sem nunca virar ação. Enquanto isso, o funcionário continua trabalhando, entregando e cumprindo a sua parte, e a palavra dada do outro lado simplesmente evapora.

Portanto, a parábola dos dois filhos não fala apenas de religiosidade de fachada diante de Deus. Ela fala de qualquer “sim” que nasce fácil e morre em silêncio, seja no altar, seja numa sala de reunião. E, se formos honestos, todos já estivemos dos dois lados dessa moeda: já sofremos com um “sim” vazio e também já demos um.

A pergunta que a parábola dos dois filhos ainda faz

A pergunta de Jesus atravessa os séculos e continua tão desconfortável hoje quanto era no templo. Além disso, a reflexão proposta pela parábola dos dois filhos permanece muito necessária.

Qual dos dois filhos você tem sido nesta semana?

E há, ainda, uma segunda pergunta, talvez mais difícil: como você reage quando alguém age com você como o segundo filho, quando você cumpriu a parte que dependia de você, mas o outro não cumpriu a dele? Deus não se interessa apenas pelo seu “sim” de boca. Ele também observa como você Lhe entrega o que está fora do seu controle, enquanto continua fiel na sua própria vinha. Por fim, convém sempre lembrar do desafio prático lançado pela parábola dos dois filhos.

Este devocional faz parte da série Devocionais do Ekklesiastes.

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